Amaldiçoados
Encontrando algo no além.
“Boa noite, menino”, era o que ele mesmo sussurrava para si, tentando lembrar do doce da sua voz, mais na memória que na garganta, todos as noites, ou pelo menos nas noites que se lembrava de sussurrar para si, e num orgulho canhestro ele sabe que é na maioria das noites.
Conseguia colocar um ar nas cordas vocais para mal emular a voz real dela, ainda que o suficiente para que a lembrança da voz sobrepujasse o som da fala. “Oi, gatinho”. E por aí vai, começava então a decisão de levar ou não aquela conversa adiante: iria só devolver o Boa Noite? Ou comentar seu dia? - ou então, e era muito comum, entrar numa espiral de justificativas chorosas do porquê de estar ali, enrolado no edredom, escondido da vida, inútil e vil, ainda paralisado e falando com a namorada falecida há quase 2 anos.
Ela preenchia como podia essas conversas, incompleta que era então, um fantasma que, por incontáveis e delimitados dias, agora assombrava uma parcela considerável da sua mente. Ele tentava dar espaço mental para aquela alma parasita, criava contextos para sua humilde habitação metafísica. Tentava, em vão, deixar ela longe dos seus pensamentos mais sombrios e escuros, das suas pulsões sujas e perversas, de todo um passado e um futuro que agora estavam abertos a ela como a carne está para a lâmina.
Quando ele indagava sobre o que ela teria achado de uma cena de um filme, sobre uma música, sobre uma ilustração, ela respondia da melhor forma que conseguia ser: uma simulação de quem havia sido. Não, muito pior: da simulação que ele conseguia criar baseada nas suas próprias memórias. Não, ainda mais grave: da emulação do ideal que ele criara dessas lembranças, uma sombra de uma sombra, uma criatura tão insuficiente que o fazia se afogar em vergonha. Imagine achar que aquele fantasma era ela? Imagine alguém descobrir que ele a mantinha ali, presa no seu coração, acorrentada e destruída, uma versão tão diminuta e ridícula que qualquer um que a conhecesse teria motivos para se indignar, achasse aquele espírito um arremedo desrespeitoso, um acinte, e ele humilhado sabe que estariam certos.
Mas então a aparição o abraça, como sempre imaginava abraçá-lo, olhando para ele digitando seu texto no computador. Ela sabe que ele está fazendo seu ritual ridículo de constrição, um autoflagelo performático, mas ela cruza seus longos braços ao redor do seu tórax, envolve as costelas dele em seus longos dedos, pressiona seus seios espectrais nas costas do pobre coitado, que sente o leve pousar da respiração dela em sua nuca, aquele respirar tranquilo da memória de tantos sonos que compartilharam em suas camas, nas noites tranquilas de um passado agora sempre presente.
E ela concede a ele a graça do seu perdão, e a graça do suave amor que brota daquela casa pequena em que ele a colocou dentro do seu coração, daquela habitação apertada mas que era, quando explorada, infinita, corredores e corredores negros, sem luz ou matéria, que ele criava a cada suspiro para desenhar um vazio em que ela pudesse vagar.
Estavam amaldiçoados, acorrentados para sempre nas masmorras daquele antigo castelo escocês que ela não conheceu em vida, que ele havia lhe mostrado em memória filmada, a levado para dentro enquanto ele mesmo chorava e fechava os grilhões ao redor dos seus pulsos.
Escreve na tela: Feliz dia dos namorados, menina. Sente seu beijo piedoso. “Oh, meu gatinho”. Ela sente seus lábios. O mundo é mágico onde se permite compaixão.
Cenas do filme Sei onde Fica o Paraíso (I Know Where I’m Going! - 1945), realizado pela dupla Michael Powell e Emeric Pressburger, que sabiam que sim, existe algo além do mundo material.



